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Bem Vindos (as )











Sejam todos bem vindos !!!

Este blog destiná-se a todas as pessoas que amam poesias, ele fala do meu Eu poético, das minhas inspirações, utopias, sonhos e do meu estado de espírito !!!! Nele vejo-me como Sou : ser inacabado em processo de vim a ser ...

Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha

é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a

outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa

sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de

si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela

responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.

Charles Chaplin




Belém Pará

Belém Pará
Belém Pará

terça-feira, maio 31, 2011

Como eu te amo





Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá na extrema do horizonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite na mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vaivém a nau flutua,

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,
A mansa viração que o bosque ondeia,
O sussurro da fonte que serpeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.

De mim não saberás como te adoro;
Não te direi jamais,
Se te amo, e como, e a quanto extremo chega
Esta paixão voraz!

Se andas, sou o eco dos teus passos;
Da tua voz, se falas;
o murmúrio saudoso que responde
Ao suspiro que exalas.

No odor dos teus perfumes te procuro,
Tuas pegadas sigo;
Velo teus dias, te acompanho sempre,
E não me vês contigo!

Oculto e ignorado me desvelo
Por ti, que me não vês;
Aliso o teu caminho, esparjo flores,
Onde pisam teus pés.
Mesmo lendo estes versos, que m'inspiras,
— "Não pensa em mim", dirás:
Imagina-o, se o podes, que os meus lábios
Não to dirão jamais!

Sim, eu te amo; porém nunca
Saberás do meu amor;
A minha canção singela
Traiçoeira não revela
O prêmio santo que anela
O sofrer do trovador!

Sim, eu te amo; porém nunca
Dos lábios meus saberás,
Que é fundo como a desgraça,
Que o pranto não adelgaça,
Leve, qual sombra que passa,
Ou como um sonho fugaz!

Aos meus lábios, aos meus olhos
Do silêncio imponho a lei;
Mas lá onde a dor se esquece,
Onde a luz nunca falece,
Onde o prazer sempre cresce,
Lá saberás se te amei!

E então dirás: Objeto
Fui de santo e puro amor:
A sua canção singela;
Tudo agora me revela;
Já sei o prêmio que anela
O sofrer do trovador.

"Amou-me como se ama a luz querida,
Como se ama o silêncio, os sons, os céus,
Qual se amam cores e perfume e vida,
Os pais e a pátria, e a virtude e a Deus!"

Gonçalves Dias

Quase um poema de Amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
--- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor 

Miguel Torga

É urgente o Amor





É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugênio de Andrade

segunda-feira, maio 30, 2011

Detalhes : versos soltos




já disse
Que eu adoro o teu olhar?
o teu sorriso
teu jeitinho
como passas a mão no queixo, no cabelo
 e também quando mexes com as mãos
 e  morde os dedos
e também quando tu te arrepias
E quando tu sorris
E quando  ficas tímido
Quando tu me diz coisas bonitas 
Quando  dizes boa noite heloisaaaaaaaaaaaaaaaa
Quando tu fazes serenata pra mim
E quando mesmo morrendo de sono .. dizes vou ficar mais um pouquinho
Quando sentes saudades
e quando ficas de vermelho
de azul
de cinza
E quando passas as mãos nos olhos
E quando fazes a barba só pra eu dizer que estás lindo
Eu já te disse também....
que tu me fazes muito feliz
que tu alegras meu dia
minha tarde
minha noite
e a madrugada
e também quando tens insônia
e também quando entras toda a tarde só pra diz te adoro
mesmo que seja na hora do intervalo
e tb quando ficas de ladinho
E quando ficas a comer doce
chocolate pra me provocar
e tb quando vejo o brilho dos teus olhos
Eu até consigo ver tua alma
de tanta leveza por ver a minha
por isso ...
E por muitas razões
Eu te digo te adoro .

By Heloisa Melo

Minha amada


Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
Com janelas de aurora e árvores no quintal -
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
E ao crepúsculo fiquem cinzentas
como a roupa dos pescadores.

O que desejo é apenas uma casa.

Em verdade, Não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.

Sem nome, porém honrada, Senhor.

Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que
nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir
os ventos pelos caminhos, e ver o sol

Dourando os cabelos negros

e os olhos de minha amada.


Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.

Em verdade ele é a parte mais importante deste poema.
Em verdade vos digo, e bastante constrangido,
Que sem ela a casa também eu não queria,
e voltava pra pensão.



Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos

E a dona é sempre uma senhora
do interior que tem uma filha alegre.
Eu adoro menina alegre,
e daí podeis muito bem deduzir

Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.


Nas minhas solidões de amor e

nas minhas solidões do pecado
Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis
Como amarga a vida de um
homem o carinho das prostitutas!

Vós sabeis como tudo amarga

naquelas vestes amassadas
Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.

Permiti que eu sonhe com

a minha amada também, porque:
- De que me vale ter casa sem ter
mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame
andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o
como se vê nos cinemas...

O ideal seria uma que amasse fazer comparações

de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno,
gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas...

O ideal seria uma menina boba:

que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono,
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome -
senão que um sorriso triste
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto
das crianças que não têm rumo...

Manuel de Barros 

domingo, maio 29, 2011

Amarte


Te  amar é  algo especial , não tenho palavras
O amor acontece uma só vez , e naõ podemos perdê-lo
Por amarte  te protegeria de toda a maldade
Por amarte  roubaria uma estrela e te daria
Por amarte atravessaria o  oceano
por amarte escreveria o teu nome no meu coração
por  amarte enfrentaria  o  inverno rigoroso
Por amarte caminharia  no deserto  pra  te encontrar
por amarte daria minha vida, só por te amar
por amarte contarias as gotas de chuva sem vacilar
Por amarte não esconderia tal sentimento
Não me calaria 

By Heloisa Melo  

Como t e perdesse


Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hist

sábado, maio 28, 2011

Alfabeto do Olhar






Quando eu te olho sinto arrepios
Quando me olhas quero beijar-te
Quanto te olho quero carinho
Quando me olhas sinto desejos
Quando eu te olho a  memória  eterniza
Qunado me olhas as estrelas fulminam
Quando eu te olho Girassol se abre
Quando me olhas há uma perfeita harmonia
Quando eu te olho minha vida  se inebria
Quando me olhas  pingos de amor caem na janela
Quando eu te olho o meu amor é labareda
Quando tu me olhas tudo é mistério
Quando eu te olho me tocas profundo e cai a noite
Qaundo tu me olhas o deserto fica oásis
Quando eu te olho me dás tanta paz
Quando tu me olhas quero-te ainda mais
Quando eu te olho minha alma repousa
Quando tu me olhas meus sonhos criam asas
Quando eu te olho sinto tanta ternura
Quando tu me olhas nossos olhares se unem
Quando eu te olho minha voz se cala
Quando tu me olhas quero xodó 
Quando eu te olho faço zuído nos teus ouvidos

By Heloisa Melo

Pedido de Empréstimo




Arranja-me uns versos para o verão.
Coisas de areia, de memória
e sem futuro. Passos das tuas coisas
em volta, a luz perdendo
que guia o pescador, o turista
e o amante em aventuras com regresso
aos quartos onde repousa para o fim
a escassa vida.

Escreve como quem descreve quase
o fim do amor, da casa, do caminho
o teu ao meio-dia de Agosto
quase inteiro de sol
e outras poentes alegrias.


António Manuel Azevedo

Gritar

GRITAR

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.

 
Paul Éluard



sexta-feira, maio 27, 2011

Quando cheguei á vida




Vela sobre minha vida, meu grande amor imenso.
Quando cheguei à vida trazia em suspense,
na alma e na carne, a loucura inimiga,
o capricho elegante e o desejo que açoita.
Encantavam-me as viagens pelas almas humanas,
a luz, os estrangeiros, as abelhas leves,
o ócio, as palavras que iniciam o idílio,
os corpos harmoniosos, os versos de Virgílio.
Quando sobre teu peito minha alma foi tranqüilizada,
e a doce criatura, tua e minha, desejada,
eu pus entre tuas mãos toda minha fantasia
e te disse humilhada por estes pensamentos:
-Vigiai-me os olhos! Quando mudam os ventos
a alma feminina se transtorna e varia…

Alfonsina  Storni

Poema de Amor




O sol nos esqueceu ontem sobre a areia,
nos envolveu o rumor suave do mar,
teu corpo me deu calor,
tinha frio,
e ali na areia,
entre os dois nasceu este poema,
este pobre poema de amor
para ti
Meu fruto, minha flor,
minha história de amor,
minhas carícias
Meu humilde candeeiro,
minha chuva de abril,
minha avareza
Meu pedaço de pão,
meu velho refrão,
meu poeta
A fé que perdi,
meu caminho
e minha carreta
Meu doce prazer,
meu sonho de ontem,
minha bagagem
Meu morno canto,
Minha melhor canção,
minha paisagem
Meu manancial,
meu canavial,
minha riqueza
Minha lenha, minha lareira,
meu teto, meu lar,
minha nobreza
Minha fonte, minha sede,
meu barco, minha rede
e a areia
Onde te senti
onde te escrevi
meu poema

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Garras dos sentidos


Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos

Agustina Bessa-Luis

quinta-feira, maio 26, 2011

A rua dos cataventos



Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mario Quintana

Na rua


Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha...

Minha sempre! - E em voz baixinha:
- «Tua ainda além da vida!...»
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.

Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,

(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
- como uma tarde de Setembro...

Manuel Laranjeira

A tristeza de viver


Ânsia de amar! oh ânsia de viver!
Uma hora só que seja, mas vivida
e satisfeita... e pode-se morrer
– porque se morre abençoando a vida!

Mas ess'hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura
oh vida mentirosa, oh vida impura
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!

E quantos como em a desejaram!
E quantos como eu nunca tiveram
uma hora de amor como a sonharam!

Em quantos olhos tristes tenho eu lido
O desespero dos que não viveram
Esse sonho de amor incompreendido! 
 
Manuel Laranjeira 

Soneto do Cativo















Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão

Canção Grata





Por tudo o que me deste: — Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? E certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco...
Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

Carlos Queiroz

Soneto 2


Quanto, quanto me queres? — perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.


Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...


Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...


Não perguntes, não sei — não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.
Antonio Botto

O teu retrato



Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha 


Manuel Laranjeira



quarta-feira, maio 25, 2011

Ser Poeta


Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho.
...
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.
...
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar...
...
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
...
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
 
Fernando Pessoa

Sossega Coração






     Sossega, coração! Não desesperes!
     Talvez um dia, para além dos dias,
     Encontres o que queres porque o queres.
     Então, livre de falsas nostalgias,
     Atingirás a perfeição de seres. 
 
     Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
     Pobre esperença a de existir somente!

     Como quem passa a mão pelo cabelo

     E em si mesmo se sente diferente,

     Como faz mal ao sonho o concebê-lo! 
 
     Sossega, coração, contudo! Dorme!
     O sossego não quer razão nem causa.

     Quer só a noite plácida e enorme,

     A grande, universal, solente pausa

     Antes que tudo em tudo se transforme. 
 
          Fernando Pessoa

 

Adotarei o Amor




Adotarei o amor por companheiro e o escutarei cantando, e o beberei como vinho, e o usarei como vestimenta. Na aurora, o amor me acordará e me conduzirá aos prados distantes. Ao meio dia, me conduzirá à sombra das árvores onde me protegerei do sol como os pássaros. Ao entardecer me conduzirá ao poente, onde ouvirei a melodia da natureza despedindo-se da luz, e contemplarei as sombras da quietude adejando no espaço. À noite, o amor me abraçará, e sonharei com os mundos superiores onde moram as almas dos enamorados e dos poetas. Na primavera, andarei com o amor, lado a lado, e cantaremos juntos entre as colinas; e seguiremos as pegadas da vida, que são as violetas e as margaridas; e beberemos a água da chuva, acumulada nos poços, em taças feitas de narciso e lírios. No verão, me deitarei ao lado do amor sobre camas feitas com feixes de espigas, tendo o firmamento por cobertor e a lua e as estrelas por companheiras. No outono, irei com o amor aos vinhedos e nos sentaremos no lagar, e contemplaremos as árvores se despindo das suas vestimentas douradas e os bandos de aves migratórias voando para as costas do mar. No inverno, me sentarei com o amor diante da lareira e conversaremos sobre os acontecimentos dos séculos e os anais das nações e povos. O amor será meu tutor na juventude, meu apoio na maturidade, e meu consolo na velhice. O amor permanecerá comigo até o fim da vida, até que a morte chegue, e a mão de Deus nos reúna de novo.

(Khalil Gibran)

O primeiro beijo




É o primeiro gole de néctar da Vida, numa taça ofertada pela divindade. É a linha divisória entre a dúvida que engana o espírito e entristece o coração, e a certeza que inunda de alegria nosso íntimo. É o começo da canção da Vida e o primeiro ato do drama do Homem Ideal. É o vínculo que une a obscuridade do passado com a luminosidade do futuro; é a ponte entre o silêncio dos sentimentos e a sua própria melodia. É uma palavra pronunciada por quatro lábios, proclamando o coração um trono, o Amor um rei e a fidelidade uma coroa. É o toque leviano dos dedos delicados da brisa nos lábios da rosa - pronunciando um longo suspiro de alívio e um suave gemido. É o começo daquela vibração mágica que transporta os amantes do mundo das coisas e dos seres para o mundo dos sonhos e das revelações. É a união de duas flores perfumadas; e a mistura de suas fragrâncias, para a criação de uma terceira alma. Assim como o primeiro olhar é uma semente lançada pela divindade no campo do coração humano, assim o primeiro beijo é a primeira flor nascida na ponta dos ramos da Árvore da Vida. 
(Khalil Gibran)

terça-feira, maio 24, 2011

Amai-vos


Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão. Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossa alma. Enchei a taça um do outro, mas não bebais da mesma taça. Dai do vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho. Assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia. Dai vosso coração, mas não o confieis à guarda um do outro. Pois somente a mão da Vida pode conter vosso coração. E vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente. Pois as colunas do templo erguem-se separadamente. E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

 (Kahlil Gibran)

Sobre a dor




E uma mulher disse: - Fala-nos da dor. E ele respondeu dizendo: - É a dor que parte a casca do vosso entendimento. Como o caroço do fruto se deve partir, para que o seu coração se ofereça ao sol, assim deveis conhecer a dor. E podereis guardar o vosso coração maravilhado pelo milagre de estar vivo todos os dias, e a vossa dor não aparecerá menos maravilhosa que a vossa alegria. E aceitareis as estações do vosso coração como aceitastes as estações que passam pelos campos. E velareis serenamente durante os invernos da vossa tristeza. Muito do vosso sofrimento fostes vós que o escolhestes. É a porção amarga por meio da qual o médico cura o vosso eu doente. Confiai no médico e bebei a poção calados e tranqüilos. Pois a sua mão, apesar de ser dura e pesada, é guiada pela mão bondosa do Invisível; E a taça que oferece, apesar de queimar os lábios, foi moldada da argila que o oleiro molhou com suas lágrimas

. (Khalil Gibran)

Ressurreição






Tudo isso passou-se ontem, minha amada, quando meus sonhos se escondiam na escuridão e temiam a aproximação do dia. Tudo isso se passou quando a tristeza dilacerou o meu coração e a Esperança esforçou-se para consertá-lo. Em uma noite, numa hora, num pequeno espaço de tempo, o Espírito desceu do centro do círculo da luz divina e olhou para mim com olhos do teu coração. Daquele olhar, nasceu o Amor, e ele encontrou refúgio em meu coração. Esse grande Amor, envolto nas vestes de meus sentimentos, transformou a tristeza em alegria e o desespero em contentamento, a solidão em paraíso.

(Khalil Gibran)